Buscar
  • Ingrid Lima

PRÓLOGO

PRÓLOGO


Os primeiros sinais da lua de sangue já despontavam no céu indicando mais uma vez que Eliza se atrasaria para o banquete que iniciaria as festividades de inverno no reino de Lyra. Estava tão distraída caminhando pela floresta, ouvindo cada estalo que as folhas secas faziam quando pisava nelas que só se deu conta de que já era tarde quando Airo, general do exército real a encontrou perambulando pelos limites do castelo.

— Alteza, os guardas já estão se preparando para abrir os portões do palácio. Isolda está a sua procura. — Disse ele fazendo uma reverência.

Assustada, Eliza olhou para o céu alaranjado e respondeu Airo enquanto corria em direção aos seus aposentos.

— Céus! Nem me dei conta de que ficara tão tarde, obrigada por vir me lembrar Airo.

A temperatura durante a noite começava a cair cada vez mais, indício de que grandes tempestades e geadas se aproximavam para o lado norte da província. O festival de inverno era uma forma de celebrar o início da temporada de pescas — que traria fartura à mesa de muitas famílias por meses e meses. Eliza havia prometido à sua mãe que se ela a deixasse explorar a floresta durante a tarde ela não se atrasaria para as celebrações e dançaria com quantas pessoas ela quisesse. Teria que se apressar para não desapontá-la.

Eliza desdobrou os corredores do castelo em tempo recorde e quando chegou aos seus aposentos de forma ofegante encontrou uma Isolda que andava de um lado para o outro impaciente. Quando sua dama de companhia viu seu estado desarrumado soltou uma risadinha.

— Você por um acaso estava brigando com um esquilo? — Perguntou Isolda.

— Muito engraçado, por que não me ajuda ao invés de rir às minhas custas? — Respondeu ela, com um sorriso no rosto.

— Se você se apressar ainda consegue tomar um banho morno — Isolda informou enquanto ajudava Eliza a se despir — A rainha passou por aqui há alguns minutos e eu disse a ela que você já estava saindo do banho, não temos tempo a perder.

— Sabe... nós somos muito parecidas, se você mantivesse uma certa distância dos meus pais tenho certeza de que eles pensariam que somos a mesma pessoa. — Disse Eliza em tom brincalhão.

— Ou você pode parar de ter ideias estúpidas e entrar na banheira agora. — Respondeu Isolda enquanto a empurrava em direção ao quarto de banho.

Apesar de estar brincando, Eliza sabia que ela e Isolda eram muito parecidas. As duas tinham estatura baixa e possuíam cabelos ondulados e de um tom marrom tão escuro que até pareciam ser pretos, suas peles tinham um tom acobreado escuro que resplandecia sob a luz de qualquer aposento em que entravam, pareciam ter sido beijadas pelo sol. As semelhanças, porém, paravam por aí, onde Eliza ainda possuía traços infantis — atributos comuns para uma garota que recém havia completado quinze anos de idade —, Isolda possuía uma maior elegância em seu andar adquirida durante seus vinte anos de vida. E se assim mesmo alguém chegasse a confundir uma com a outra seus olhos trariam a verdade à tona. Eliza herdara os olhos verde oliva de sua mãe, já Isolda possuía olhos castanhos escuros.

Após terminar seu banho e entrar de volta em seu quarto, Eliza viu que Isolda já havia colocado o vestido, azul cobalto — cor que representava o reino, — que ela usaria naquela noite estendido em sua cama.

— Está animada para as celebrações desta noite? — Perguntou Isolda enquanto separava os enfeites de cabelo que adornariam a cabeça da princesa de Lyra

— Meh, mais ou menos. Todos os anos a celebração é sempre a mesma, no primeiro dia um banquete e nos outros, mais festas e música até que todos fiquem tão bêbados que se esquecem que o festival já acabou. — Respondeu Eliza enquanto entrava em suas vestimentas. — Mas e você? Está nervosa? Se me lembro bem vai se encontrar com um certo pescador... — Disse direcionando a conversa para a sua dama de companhia e também única amiga.

— Não sei do que você está falando, agora venha aqui para que eu possa arrumar os seus cabelos — Negou Isolda, fazendo o seu melhor para que a princesa não a visse ruborizar. — Vou penteá-los em um coque já que não houve tempo para lavá-lo. Só espero que ninguém encontre uma folha de arvore entre as mechas.

Eliza se sentou em frente ao espelho da cômoda feliz em ter evitado responder a pergunta de sua companheira de forma sincera. A verdade era que diferente dos outros anos ela se sentia sim um pouco nervosa para o começo do festival. Este seria o primeiro ano em que ela daria início às celebrações que aconteceriam durante os próximos cinco dias. Suas primeiras responsabilidades como membro da realeza, pontapé inicial no seu preparo para se tornar a futura rainha do reino de Lyra. A ideia de liderar todo um território, protegendo e governando milhares de pessoas a deixava paralisada de medo. Não só isso, mas a ela não conseguia se imaginar uma soberana com súditos, alguém que guiasse seu povo em tempos de conflito e guerras. Imaginar tal cena já fazia com que ela se sentisse nauseada e encurralada. Motivo pelo qual ela passava o dia todo explorando a floresta que cercava os limites do palácio sempre que podia, quanto mais ela se afastava de sua casa e responsabilidades das quais não tinha se certeza se realmente queria, mais livre se encontrava.

Assim que Isolda terminou de colocar as últimas perolas que enfeitavam seu cabelo, olhou nos olhos de Eliza através do espelho, com uma expressão gentil em seu olhar.

— Tente apenas se divertir hoje, tente se divertir pelo resto da semana na verdade. Quando você estiver pronta, pode me contar o que realmente está pensando. — Falou.

Eliza só conseguiu acenar acanhadamente, surpresa pelo fato de não conseguir enganá-la tão bem quanto acreditara que tinha, enquanto assistia a amiga retroceder em direção a porta do quarto.

— Espere aqui, sua majestade, a rainha me pediu para que lhe avisasse que alguém a escoltaria até eles para que vocês fizessem a grande entrada juntos. — Finalizou Isolda, enquanto fechava a porta deixando Eliza à mercê de seus pensamentos inquietos.

Eliza soltou um suspiro e se abaixou para pegar suas sapatilhas que estavam embaixo da cama, tentar se divertir essa semana seria mais fácil na teoria do que na realidade. Quando terminou de calçar as sapatilhas se levantou e caminhou até sua cômoda novamente a abriu a gaveta onde suas joias favoritas ficavam guardadas, encontrou um pedaço de papel dentro dela.


Muitos anos atrás ganhei este pendente de meu pai para usá-lo durante o festival de inverno. A partir de hoje ele lhe pertence. Sempre que olhar para ele lembre-se de que está destinada a grandes coisas, mesmo não acreditando ainda.


Embaixo do bilhete Eliza encontrou um pendente que carregava o brasão que representava sua família, uma árvore cercada por duas montanhas, símbolos de Lyra. Já vira sua mãe usá-lo no passado, mas não sabia de sua história. Colocou o pendente em seu pescoço e sentiu um nó na garganta enquanto posicionava o colar, queria partilhar da mesma fé em si mesma que sua mãe parecia ter nela. Continuou apreciando o pendente distraída quando de repente um raio atravessou o céu, iluminando seu quarto por completo seguido de um trovão que pareceu sacudir as estruturas do palácio.

Eliza deu um salto, assustada e se perguntou se seria possível começar as celebrações esta noite ou se o banquete teria que ser adiado. Nada como ter convidados ensopados como gambás para acabar com o clima de comemoração. Cogitou com alegria que se caso o festival fosse adiado ela poderia escapar de suas obrigações por um pouco mais de tempo. Imediatamente após pensar nessa possibilidade sentiu-se culpada. Muitas pessoas contavam os dias para que o festival começasse logo, torcer para que ele atrasasse era infantil e egoísta da parte dela.

— Colocar minhas necessidades acima das necessidades dos meus súditos certamente não é qualidade de uma futura rainha — Eliza murmurou para si mesma. — De uma rainha tirana talvez, mas não de uma boa rainha.

Mas ela conhecia uma boa rainha, se lembrou. Na verdade conhecia um bom rei também, eles eram seus pais. Ambos governavam com justiça e pulso firme, mas também com compaixão. Se ela fracassasse não só desapontaria seu povo, mas também seus pais, a ideia a enchia de angústia e desespero.

Três batidas na porta desviaram a atenção de Eliza de seus pensamentos tempestuosos.

— Quem é? — Perguntou em tom de voz elevado para que quem estivesse do outro lado pudesse ouvi-la com clareza.

— É Airo, alteza.

Eliza se apressou e abriu a porta. Parado na parede oposta estava o general. Tinha cabelos ruivos na altura dos ombros e como sempre estavam presos em uma trança bem rente à nuca. Diferente dos outros dias usava uma farda azul escuro com suas medalhas de condecoração por serviços prestados à coroa presas do lado esquerdo de seu peito.

— Já está pronta, alteza?

— Sim Airo. — Respondeu ela enquanto fechava a porta de seu quarto, e depois começou a andar até a saída direita do corredor, já que aquele caminho era que os levariam para a entrada do salão de festas onde o banquete tomaria início. Mas quando olhou para o lado, viu que estava caminhando sozinha.

— Airo? Você está indo para o lado errado.

— Hmm? Ah, não... — Gaguejou Airo.

Eliza olhou para ele com paciência esperando enquanto o general se recompunha.

— Me perdoe princesa, o rei me pediu para que te levasse primeiro ao seu gabinete. Parece-me que ele tem algo para lhe contar. — Disse ele limpando a garganta.

— Oh! — Exclamou ela com surpresa. — Tudo bem então. — Respondeu Eliza caminhando para o lado esquerdo do corredor dessa vez.

Enquanto percorriam o caminho até o gabinete Eliza se lembrou que Isolda comentara que sua mãe queria que os três fizessem uma grande entrada juntos para dar o início ao banquete. Seu pai querer lhe contar algo minutos antes dele começar era no mínimo estranho. Outra coisa que causava estranheza era a ausência de sua mãe já que Eliza estava bem atrasada. Na maioria das vezes Isolda não era capaz de dissuadir sua mãe com uma mentira tão simples quanto a que usara. A rainha Cateline era conhecida por sua obstinação e seu silêncio causou uma súbita onda de preocupação em Eliza.

Procurando acalmar sua apreensão Eliza se virou na direção de Airo enquanto os dois ainda caminhavam com a intenção de perguntar se ele sabia o que seu pai desejava lhe contar, mas ao olhar com mais atenção para o homem que estava ao seu lado percebeu que ele não parecia muito bem. Suor escorria por suas têmporas e apesar de não deixar transparecer nenhuma emoção, seu corpo estava tenso. Além disso, a parte interna de suas mãos pareciam estar manchadas de algo que lembrava Eliza a sangue seco.

— Airo, você está se sentindo bem? — Perguntou Eliza preocupada.

Mas Airo estava tão distraído que nem sequer chegou a demonstrar que percebera Eliza chamando-o pelo nome.

— Airo. — Repetiu ela, dessa vez quase gritando.

— O quê? — Respondeu ele com expressão irritada.

Antes que Eliza pudesse tentar entender a fonte de sua irritação, Airo se recompôs rapidamente fazendo com que ela se perguntasse se não estava imaginando coisas.

— Me perdoe alteza, o festival sempre me deixa muito sobrecarregado. Só estou estressado por quero que tudo saia bem. A senhorita deseja alguma coisa?

— Não, não. Na verdade só estava preocupada com você mesmo. Se não for muita indiscrição da minha parte pode me dizer o que aconteceu com as suas mãos?

Airo pareceu ter sido acertado por um raio quando Eliza terminara de fazer sua pergunta, se possível ficara ainda mais tenso, o que por consequência a deixara tensa também.

— Ora isso não é nada, acabei tropeçando a caminho de seus aposentos é só. Até nós guardas, passamos por momentos embaraçosos uma vez ou outra. — Disse ele enquanto tentava limpar os vestígios de sangue em suas calças e sorria em sua direção.

Por algum motivo a explicação de Airo não serviu para acalmar os nervos de Eliza, pelo contrário, fez com que ela se sentisse mais inquieta, contudo antes que pudesse fazer mais perguntas viu Isolda cruzando um corredor logo à sua frente e prontamente chamou sua dama de companhia

— Isolda, venha nos acompanhe, por favor.

Isolda parecia um pouco atordoada, mas quando viu quem a chamava sorriu e começou a caminhar em direção a Eliza. Sua amiga agora estava arrumada e pronta para aproveitar o festival e sua noite livre de obrigações. Ela agora vestia um longo vestido verde esmeralda que parecia ter sido feito sob medida, seus cabelos encaracolados estavam soltos e volumosos. Sua amiga nunca esteve tão bela e por um momento Eliza sentiu uma pequena pontada de inveja, desejava ser tão graciosa quanto ela para que as pessoas pudessem realmente as confundir uma com a outra. Ao lado de Isolda, ela se sentia um patinho feio. Aquele pensamento a fez sentir-se tão mesquinha que ela logo os baniu de sua e cabeça e com um sorriso largo elogiou sua dama de companhia.

— Olhe só para você. Está linda, ninguém conseguirá tirar os olhos de você.

— Ninguém conseguira tirar os olhos de nós. — Disse Isolda, acanhada. — Vocês estão indo encontrar o rei e a rainha? Eles não estão no lugar combinado e a dama de companhia de sua mãe me pediu para que os procurassem.

— É mesmo? Airo me disse que meu pai pediu para que eu fosse lhe encontrar em seu gabinete. Por que não vamos todos até ele? Tenho certeza de que minha mãe também está lá. — Respondeu Eliza enquanto entrelaçava seu braço com o de Isolda.

No mesmo instante, Airo limpou pigarreou protestando.

— Princesa, acho que não é uma boa ideia, o rei me pe- — Dizia ele de forma urgente.

— Bobagem, vamos todos juntos para que não ocorra mais desencontros ou atrasos. — Eliza disse interrompendo os protestos de Airo de uma vez por todas e seguindo em frente em direção ao gabinete de seu pai.

Eliza dobrou a esquerda e ao longe já podia ver a porta do gabinete entreaberta e em frente a ela estava Elvira, comandante da guarda real, em seu traje azul marinho que era usado por todos os guardas. Enquanto caminhava em direção à porta Eliza ouvia a tempestade ficar cada vez mais forte, um raio a fez pular tensa e nesse momento sentiu o olhar de Elvira nela. Apesar de nunca ter comentado com ninguém, ficar na presença da comandante de cabelos escuros curtos e olhos azuis lhe deixava desconfortável. Quando estavam a apenas dez passos da entrada do gabinete, Elvira bloqueou a porta com o seu corpo e voltou seu olhar para Isolda franzindo o cenho.

— O que a criada faz aqui? — Perguntou Elvira de maneira rude.

— Não fale com Isolda desse jeito. — Ordenou Eliza de maneira firme.

Antes que a comandante pudesse retrucar a ordem ou se desculpar com Isolda, Eliza ouviu um barulho de vidro se quebrando vindo do lado de dentro do gabinete. Logo em seguida ouviu então seu pai gritando com a voz aterrorizada.

— Eliza, corra!

Sem entender o que estava acontecendo, mas desesperada, Eliza empurrou Elvira para fora de seu caminho e abriu a porta freneticamente. Entrando no gabinete, seus olhos percorreram cada centímetro do cômodo em questão de segundos e quando finalmente compreendeu a cena que se deparara sentiu seu corpo ficar gelado e quente ao mesmo tempo. Perto da escrivaninha seu pai estava ajoelhado, com uma adaga apontada direto para sua garganta, empunhada por Vandressa, sua conselheira, com lágrimas escorrendo por seu rosto. A cena era tão chocante que Eliza não aguentou e desviou seu olhar, mas ao fazer isso sua visão fixou-se em algo ainda mais desolador e terrível. Sua mãe estava jogada ao pé da janela, seus cabelos estavam desgrenhados com mechas soltas e presas ao mesmo tempo, seu vestido marfim rendado estava tingido de vermelho pelo sangue que escorria de um ferimento no alto de seu pescoço e seus olhos estavam abertos fitando o nada.

— Mamãe! — Gritou Eliza em agonia correndo em sua direção.

Ao fundo podia ouvir seu pai suplicando.

— Vandressa, deixe Eliza escapar. Ela é só uma criança, não faça isso.

Eliza que agora segurava sua mãe nos braços voltou seu olhar para o desastre que ainda ocorria à sua frente e tentou enxergar por entre as lágrimas que corriam livremente por seu rosto. Vandressa apontava sua adaga com seus dedos finos e longos para o coração de seu pai agora e parecia nem ouvir as súplicas dele. Vestia um vestido verde escuro e seu cabelo loiro e comprido estava preso em um coque baixo. No topo de sua cabeça estava a coroa de seu pai. A cena toda parecia ter sido orquestrada para humilhá-lo e causar ainda mais dor.

— Você pode colocar quantas coroas quiser na cabeça, mas nunca será digna de ser rainha. — Gritou ela tomada por uma avalanche de fúria.

Vandressa direcionou seu olhar gélido em direção de Eliza e sorriu por um momento antes de se virar novamente em direção ao rei.

— Dragan, parece que mesmo sendo uma inútil sua filha tem um pouco de coragem. — E em um movimento assustadoramente rápido e treinado demais para ser contido enterrou a adaga no peito do rei. — Pena que coragem não será o suficiente para salvá-la. — Sibilou Vandressa enquanto empurrava o corpo de Dragan para o chão.

Eliza que mal teve tempo de reagir, aos tropeços agora se jogou ao lado de seu pai, que lutava para respirar, arfando de dor.

— Fuja. — Sussurrou Dragan ao mesmo tempo em que erguia uma mão ensanguentada em direção ao rosto de Eliza.

Eliza só conseguiu negar com a cabeça, pois soluçava muito, não conseguia formar sequer uma palavra. Dragan em poucos instantes já perdera muito sangue, sua pele que era escura como a noite, à luz da lua, ficava cada vez mais opaca. Sua respiração estava tão irregular que apenas com um esforço gigantesco conseguiu reunir fôlego uma última vez.

— Me perdoe.

— Papai, por favor, não. Aguente firme vou buscar ajuda. — Implorou Eliza enquanto soluçava de tanto chorar.

Ela sacudia e batia no peito do pai, mas ele não respondia mais, seus olhos estavam abertos, vazios e sem vida. Nem percebeu que Vandressa se agachava do seu lado, quando seus olhares se encontraram Eliza viu que os de Vandressa estavam vazios, desprovidos de qualquer emoção assim como os de seu pai, mesmo com ela estando viva.

Vandressa puxou a cabeça do rei do colo de Eliza pelas tranças e colocou dois dedos em seu pescoço.

— Finalmente, ele se foi. — Disse sorrindo.

Não se importando com as consequências, cega de ódio e tristeza, Eliza que também estava agachada esticou seus braços com a intenção de estrangular Vandressa. Mas antes que tivesse sucesso, duas mãos fortes bloquearam sua investida.

— Lembre-se de que o corpo dela tem que ser encontrado na floresta. É imprescindível que ninguém te veja. — Disse Vandressa se direcionando para a pessoa que segurava Eliza.

Quando Eliza olhou para trás para saber quem a segurava arfou em choque. Airo, quem seu pai tanto confiara também havia o traído. Eliza ficou tão sem reação que mal se mexeu quando o comandante da guarda a colocou de pé. Parada na porta estava Elvira e atrás dela, inconsciente e jogada no chão estava Isolda. Ver sua amiga caída fez com que Eliza automaticamente tentasse ir socorrê-la, mas seus avanços foram bloqueados novamente por Airo que ainda a segurava.

— Me solte Airo, isso é uma ordem. — Falou Eliza enquanto lutava pra se desvencilhar de seu aperto.

— Sua morte já foi traçada princesa e fantasmas não dão ordens. — Respondeu ele friamente.

Enquanto Airo a segurava, Elvira veio em sua direção tapando seu nariz com um pano que cheirava a algo muito forte. Por mais que tentasse escapar ela não conseguia e quando respirou fundo por instinto sentiu seu peito arder e instantaneamente começou a ficar zonza e cada vez mais fraca com cada suspiro que tomava, por menor que ele fosse. Sabia que estava perdendo a consciência, só esperava que quando acordasse tudo tivesse sido um pesadelo ou que se estivesse prestes a morrer de verdade pudesse se reencontrar com a sua família logo, pois viver sozinha era muito doloroso para sequer contemplar. Esse foi o último pensamento que teve antes que seu mundo ficasse completamente em silêncio e na escuridão.



Quando recobrou a consciência Eliza sentiu que estava sendo carregada por alguém e ainda muito atordoada não conseguiu nem abrir seus olhos. Ainda assim, ela sabia que estava do lado de fora do palácio agora, pois conseguia sentir o cheiro de terra molhada e a chuva caia com força, deixando-a ensopada. Além da tempestade, o vento não dava trégua, arrepiando ela dos pés à cabeça, mas ainda assim ela não se moveu. Precisava tentar escapar de alguma forma e depois saber onde Isolda estava. Por um momento desolador imaginou a amiga com a garganta cortada assim como seus pais e quase entrou em lágrimas novamente, mas logo se lembrou que estava na companhia de alguém perigoso e a caminho do seu provável assassinato e engoliu o choro e focou sua atenção nos sons e cheiros por onde passava para que pudesse encontrar uma forma de se libertar e buscar socorro.

— Você não acha que já estamos longe o suficiente? Já estou cansado de carregar a criada.

Mesmo com o barulho do vento Eliza reconheceu o dono da voz com clareza, seu nome era Melchior, um oficial de baixa patente da guarda de Lyra. Só o reconheceu porque era muito famoso por todo o reino por conta de suas excelentes habilidades de combate. O homem era um prodígio na luta corpo a corpo, arco e flecha e ainda por cima um excelente espadachim. Essa nova traição deixou seu coração pesado. Quantas pessoas haviam traído seus pais e por quê? Não sabia mais em quem podia confiar.

— Só um pouco mais a frente e acabaremos com isso. A essa altura Marçal e Úrsula já começaram a alarmar os convidados com o desaparecimento da família real.

— E por que nós temos que matá-la aqui no meio do nada? — Resmungou Melchior.

— Vandressa achou que o corpo dos três no mesmo cômodo causaria muita suspeita. A história será de que atordoada, a princesa correu para a floresta enquanto estava ferida e sangrou até morrer.

— Mas e a criada?

— Ela é apenas uma criada no meio de centenas. Ninguém sentirá sua falta. Não se esqueça de que vamos jogar seus corpos no rio, a correnteza os levara para a parte mais rochosa da orla da praia. E daqui dois dias encontraremos a princesa sem vida. — Respondeu Airo suspirando sem esconder sua impaciência como se já tivesse explicado aquilo centenas de vezes.

A falta de compaixão que Eliza ouvia na voz de Airo não deixava de lhe surpreender. O general mesmo com uma função tão importante nunca deixara de ser gentil com ela, ele também parecia ter um bom relacionamento com seu pai, um onde havia respeito mútuo. Saber que seus pais foram traídos por pessoas em quem depositaram sua confiança lhe enchia de raiva e pesar.

Alguns instantes depois, Eliza começa a ouvir ruídos de água corrente e soube que estavam se aproximando do rio. Ela era capaz de sentir o momento em que Airo depositou seu corpo no chão com pouco cuidado e logo depois ouviu seus passos se afastarem. Apesar da chuva dificultar sua visão, quando entreabriu os olhos para saber onde estava, pôde identificar a silhueta de dois homens à distância. Um deles estava agachado e começava a depositar outro corpo, no chão. Eliza sentiu de certa forma um alívio ao ver que não havia sido separada de sua amiga. De repente, sem qualquer aviso, Isolda se levanta com um pulo, pegando seus captores de surpresa e empurra o que está agachado.

Vendo ali uma chance de escapar, Eliza aproveitou o momento de distração e o barulho da chuva para se levantar também sem chamar atenção e de forma desajeitada e desesperada começou a tatear o chão em busca de algo que servisse de arma para protegê-la. Ela nem se importou em estar machucando suas mãos no chão frio e molhado da floresta, concentrada demais em encontrar algo que a ajude. Sem demora, suas mãos se esbarraram em um galho de árvore de peso razoável e sem pensar duas vezes, ela marchou com ele em direção a Airo. Tomada somente por instinto ela se aproximou do homem, com o galho empunhado e se aproveitando do elemento surpresa o acertou em cheio na têmpora com o máximo de força que conseguiu reunir em seu corpo, fazendo com que ele caísse imediatamente no chão soltando um grito de dor.

— Corra! — Gritou Eliza agarrando a mão de Isolda e a puxando consigo.

Correr no escuro já era uma tarefa árdua. Correr no escuro e num terreno instável por causa da chuva era ainda mais desafiador. A água fazia com que o peso de suas roupas se tornasse quase insuportável, mas Eliza sabia que se elas diminuíssem seu ritmo iriam ser capturadas novamente. Aos tropeços as duas conseguem ganhar distância dos dois homens. Eliza está tão ofegante que sente que seu coração irá escapar pela boca a qualquer momento.

— Vamos ter que atravessar o rio para escapar deles. — Falou Eliza.

Antes que Isolda pudesse responder, Eliza assistiu com horror uma flecha penetrar o peito da amiga. Sua amiga arfou de dor e desabou dentro do rio, que começou a arrastá-la de imediato por conta de sua correnteza forte. Sem hesitar Eliza pulou dentro do rio para tentar alcançá-la. A água estava tão fria que por um momento ela não conseguia nem se mover, quando finalmente voltou a si viu que estava de um lado do rio e sua amiga de outro. Ela então começou a nadar em direção a Isolda tentando se escorar em rochas e galhos de árvore que cercavam às margens do rio. A força da água tornava tudo muito difícil ne Eliza que colocava toda a sua atenção ao que estava em sua frente para alcançar Isolda o mais rápido possível, não viu que um grande tronco de árvore flutuava em sua direção e quando se deu conta ele já tinha acertado seu rosto. Uma ardência que começava na mandíbula e terminava no queixo, a dor a deixou tão atordoada que por breve momento parou de nadar fazendo com que ela afundasse rio adentro. O interior do rio era ainda mais gelado do que a superfície, Eliza por impulso tentou abrir os olhos, mas quando fez isso não conseguiu enxergar um palmo a sua frente, e logo fechou os olhos novamente. Lutando contra a queimação em seus pulmões que reclamavam da falta de ar, ela tomou impulso para voltar à superfície.

Assim que emergiu das profundezas do rio arfando começou a olhar à sua volta desesperadamente à procura de Isolda. Quase chorou de alívio quando viu que a amiga havia ficado presa em galhos e folhas de árvore que estavam atoladas na beira do rio. A correnteza as levou para bem longe de onde estavam inicialmente, chegaram agora à parte do rio em que ele passava por dentro de uma gruta, onde o fluxo da água diminuía um pouco.

Quando Eliza enfim conseguiu alcançar Isolda, viu que ela estava desmaiada e a arrastou com dificuldade para fora do rio. Sabia que a amiga devia ter engolido muita água por acidente começou então tentar fazer com ela cuspisse aquela água de volta. Por mais que Eliza se esforçasse, Isolda sequer se mexia. O lado racional de Eliza já entendera o porquê sua amiga, ainda com uma flecha alojada em seu peito, não acordava, mas seu lado emocional, aquele que testemunhara tamanho terror naquela noite se recusava acreditar que perdera mais uma pessoa em sua vida e que ela não pôde fazer absolutamente nada.

— Por favor, não me deixe, Isolda. Por favor, me perdoe. Por favor, por favor... — Implorou Eliza dando tapas no peito de Isolda.

Eliza agora soluçava debruçada no corpo da única e melhor amiga que perdera para sempre por sua culpa, tudo o que ela fizera naquela noite fora suplicar. Foi fraca e tola demais para enxergar o que estava acontecendo antes que seu mundo desmoronasse a sua frente. A dor que ela sentia agora era tão grande, que ela começou a gritar, sem se importar que alguém pudesse ouvi-la. Sentia-se tão vazia que gritar de alguma forma amenizava o que estava sentindo.

Eliza não sabia quanto tempo havia passado desde que tinha saído do rio, a chuva agora já havia parado, mas a ventania não dava descanso. Ela sabia que deveria buscar ajuda ou abrigo, mas estava tão cansada e dolorida, que era difícil pensar em qualquer coisa a não ser se deitar. Afastou-se poucos palmos do corpo de Isolda e se encostou junto a uma árvore. Seu rosto ardia de dor e quando passou a mão por ele viu que sangrava, se lembrou do tronco que à fez se afogar no rio, acreditava que essa fosse a fonte de seu ferimento. Só não contava com ele ser tão profundo que o sangramento não tivesse parado ainda. Limpou a ferida o melhor que pôde com a manga de seu vestido, mas quando viu que aquilo pouco adiantou, largou o ferimento de lado e se deitou no chão frio e terroso da floresta sem se importar com mais nada e fechou os olhos. Seu nariz ardia e seus olhos lacrimejavam, de início ela quis não chorar, mas logo deu espaço para que suas lágrimas caíssem. Eliza sabia que precisava ser forte, sair dali e buscar ajuda, mas a dor que sentia em sem corpo e alma eram tão grandes que a deixavam paralisada. A verdade era que ela não sabia o que fazer.

Alguém a estava sacudindo e por um momento Eliza pensou que estava de volta em sua casa, mas o chão duro da floresta logo a trouxe de volta à realidade, e com um salto ela se levantou e por consequência fez com quem a cutucava tropeçar para trás.

— AHHH, quer me matar garota? — Resmungou uma voz feminina rouca.

— Quem é você? O que quer? Por que me acordou? — Disse Eliza, disparando suas perguntas uma atrás da outra com a voz trêmula.

— Eu sou Sunev, criança. Te acordei porque ouvi você gritando lá da minha casa. Falando em casa, por que não vamos para lá, assim você pode ser aquecer e me contar o que fazia tirando uma soneca do lado de um cadáver.

Eliza sentiu seu corpo se retesar quando ouviu a mulher se referir a Isolda como um cadáver, durante esses poucos segundos acordada tinha esquecido que a amiga estava morta ao seu lado. Atordoada só conseguiu assentir ao convite de Sunev com a cabeça e fez um gesto com as mãos para que ela liderasse o caminho.

— Assim que eu te ajudar, volto para cuidar dela. — Respondeu a mulher. Era quase impossível enxergar as feições dela, pois as árvores que às rodeavam eram tão altas e cheias que tampavam a luz do luar. Eliza, porém, podia apostar que Sunev tinha uma expressão gentil em rosto quando disse isso a ela.

Antes que começassem a andar em direção a sua casa, Eliza viu Sunev se agachar e pegar uma lamparina. Assim que se levantou a mulher começou a andar floresta adentro sem olhar para ver se ela a seguia.

Eliza olhou para o corpo de Isolda se sentindo culpada por deixá-la sozinha, mesmo sabendo que não tinha mais como ajudá-la.

— Não se preocupe, quem fez isso com você vai pagar. Eu sinto muito não poder ter te protegido, mas vou fazer o possível e o impossível para que eles não façam isso com mais ninguém. Eu te amo minha amiga e sinto muito mesmo. — Terminou de falar com a voz embargada.

Dessa vez começou a seguir Sunev sem olhar para trás.

Andaram por cinco minutos em completo silêncio, Eliza não sentia vontade de ficar conversando. Ao se lembrar do que Sunev havia lhe dito, uma dúvida surgiu em sua cabeça.

— Como me ouviu gritar se sua casa fica tão longe?

— Eu menti, andei por ali porque quando chove meu corpo reclama de dor e caminhar ajuda a diminuí-las. Mentir me pareceu a maneira mais fácil de acalmá-la. Mas olhe, minha casa fica ali em frente. — Respondeu ela apontando com o dedo a sua frente.

Eliza seguiu com o olhar em direção aonde Sunev apontava e viu uma cabana de tamanho mediano, completamente iluminada do lado de dentro. Para seu corpo exausto a visão era um bálsamo. Quando chegaram em frente a porta, Sunev empurrou Eliza para entrar primeiro e logo em seguida a acompanhou trancando as duas do lado de dentro da cabana. O lugar estava tão aquecido que instantaneamente Eliza começou a tremer dos pés à cabeça.

— Venha, sente se aqui em frente ao fogo, vou fazer um chá para você. — Disse Sunev puxando uma cadeira em frente à lareira e depois se apressando para onde ficava a cozinha, imaginou Eliza.

Sem nem pensar duas vezes ela se sentou em frente ao fogo e ficou perdida em seus pensamentos. Não sabia nem por onde começar a resolver o que aconteceu. Vandressa parecia ter sido a responsável pelo massacre daquela noite, assim como Airo, Elvira, Melchior e pensou ter ouvido os nomes de Marçal e Úrsula, dois membros da corte que não tinham título, serem citados enquanto estava sendo carregada mais cedo. Todos, com exceção de Melchior que era apenas um oficial do exército, faziam parte do círculo de confiança da coroa. Dar-se conta do quão grande a teia de traição era, fez seu peito queimar de ódio. Eliza não fazia ideia de em quem confiar, e se retornasse ao palácio agora e cruzasse com a pessoa errada era capaz de tentarem assassiná-la de novo e dessa vez teriam sucesso.

Ouviu Sunev arfar e quase derrubar a xícara com chá no seu próprio corpo, quando voltou seu olhar para a mulher, que era bem baixa com a pele enrugada e cabelos grisalhos — podia ter sessenta ou cem anos, Eliza não conseguia dizer qual — e seus olhos azuis fitavam seu rosto com uma expressão assombrada.

— Você é a princesa. — Sussurrou Sunev. — O que aconteceu com você? Como veio parar aqui? Quem é aquela garota morta?

— Sei que tem muitas perguntas, mas se não for incômodo pode me ajudar a limpar esse ferimento no meu rosto? — Perguntou Eliza delicadamente.

Sunev se esticou e colocando a mão no rosto da princesa e inclinou a parte ferida em direção a luz.

— Vou fazer o meu melhor, sorte a nossa que tenho experiência em cuidar de ferimentos. Mas sua alteza provavelmente vai ter uma baita cicatriz para contar história.

— Eu não me importo com a cicatriz, e muito obrigada. — Agradeceu Eliza a mulher que agora estava de costas a ela reunindo diversos materiais.

Eliza sentia-se morta por dentro, talvez antes daquela noite ela teria se importado com a cicatriz, mas agora aquilo era a última de suas preocupações.

Sunev puxou um pequeno banco e depois de depositar os utensílios e ervas que reunira em cima dele, começou a limpar a ferida no rosto de Eliza.

— Por que não me conta o que aconteceu, huh? — Pediu Sunev.

E enquanto Sunev a suturava foi isso que ela fez, contou a curandeira tudo o que viu e ouviu. Pausando em algumas partes para segurar o choro. Quando terminou de descrever o ocorrido se sentiu drenada de todas as forças e Sunev percebendo seu estado a deixou quieta com seus pensamentos durante um tempo. Quando fechou o curativo a mulher pareceu não mais aguentar o silêncio pesado que pairava no ar e praguejou em voz alta assustando Eliza.

— Quanta gente desprezível. Vou ficar muito feliz quando você voltar lá e expulsar essa gente toda.

— Isso vai ser mais complicado do que parece. — Retorquiu Eliza tristemente. — E pode demorar um bom tempo.

— Mas por quê? Você não quer seu trono de volta?

— É claro que quero, mas esse ataque foi planejado por muito tempo e por muitas pessoas. Não faço ideia de quem mais fazia parte desse plano, voltar lá nesse momento seria loucura.

— Então o que pretende fazer? — Perguntou Sunev confusa.

— Quero que eles pensem que morri, se ninguém estiver a minha procura estarei a salvo por enquanto.

— E como pretende fazer com que eles acreditem na sua morte princesa?

— Eles vão encontrar o meu corpo. — Disse ela de forma sombria e engolindo em seco. Contar tudo o que ocorreu naquela em voz alta ajudou Eliza a colocar algumas coisas em perspectiva e formar um plano em sua cabeça. — Sei que parece loucura, e que provavelmente estou te colocando em risco pedindo sua ajuda, mas não tenho ninguém mais a quem recorrer.

— Não entendo o que está me pedindo. — Falou Sunev parecendo confusa.

— Quero que pensem que aquele outro corpo que está na floresta pertence a mim. — Disse ela.

— Tire suas roupas e se enrole com o cobertor. Isolda tem que estar vestindo o seu vestido se isso vai funcionar. E se você tiver algum objeto que a identifique será melhor ainda. — Disse Sunev concordando com o plano de imediato para a surpresa de Eliza e se levantando da cadeira de repente e indo em direção à cozinha.

Eliza seguiu as ordens de Sunev e tirou suas roupas molhadas se enrolando com um cobertor que achou dobrado próximo a cadeira que estava sentada. Começou a tirar o medalhão que tinha colocado em seu pescoço no começo daquela noite, mas logo parou, pois lembrara com um aperto no coração que ele tinha sido um presente de sua mãe e que o banquete seria a primeira vez que as pessoas a veriam usando-o. Olhou então para o anel de rubi que usava em seu dedo indicador, tinha ele por muitos anos então este serviria para enganar a todos. Tirou também as pérolas que adornavam seus cabelos e quando Sunev voltou entregou tudo nas mãos dela.

— Sei que já pedi muito, mas pode me emprestar uma muda de roupas para que eu possa sair e fazer o que tem que ser feito? — Perguntou Eliza.

— Bobagem, você vai ficar aqui e vou até lá resolver isso. E nem pense em discutir comigo, você está fraca demais, só me atrapalharia. O meu quarto fica ali perto da cozinha, é só entrar pela primeira porta que ver em sua frente. — Declarou Sunev sem deixar espaço para que Eliza pudesse argumentar.

Sunev pegou o vestido, pérolas e anel e colocou-os em uma sacola de pano. Enquanto colocava uma manta de lã para proteger o corpo do frio se virou para Eliza.

— Apesar do que estamos fazendo ser errado, vou tratar sua amiga com todo o respeito possível. — Disse com o máximo de gentileza que pôde reunir em sua voz. — Sinto muito que as coisas tenham que ser assim, farei meu melhor para ajudá-la, princesa. — Ao terminar, foi embora da cabana sem olhar para trás.

Eliza não sabia quanto tempo tinha passado desde que Sunev tinha partido, mas se sentia inquieta demais para tentar dormir e por isso só ficou sentada esperando a curandeira voltar. Quando os primeiros raios de sol anunciaram a chegada de um novo dia, Sunev abriu a porta da cabana. O saco que levara com ela continuava cheio e Eliza viu de relance que Sunev havia trazido o vestido de sua amiga de volta.

— Está feito. — Disse a curandeira de maneira ofegante

Eliza não conseguiu mais segurar a agonia que sentia e lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, de maneira silenciosa no começo, mas que logo se tornaram soluços que sacudiam seu corpo todo. Nunca mais veria seus pais, nunca mais veria sua amiga e o pior de tudo era que ela não pôde nem se despedir deles. Eliza sequer percebeu quando Sunev se aproximou e começou a consolá-la a abraçando apertado. Ficaram assim por vários minutos.

— Eliza está morta. — Disse Eliza desolada quando finalmente conseguiu se acalmar.

Se tudo corresse como esperado, em alguns dias todos do reino acreditariam que ela assim como seus pais, havia morrido. Mesmo tendo escapado Eliza sentia-se morta por dentro e tinha certeza de que aquele sentimento jamais a abandonaria enquanto ela vivesse. Ela não apenas chorava pela morte de seus pais e Isolda, mas também a sua. Eliza sabia que daqui para frente não poderia mais ser a mesma se quisesse sobreviver. Teria que mudar sua própria essência. Não tinha mais tempo para lágrimas e lamentações.

— Você pode ficar aqui o tempo que precisar, será sempre bem-vinda. — Sunev lhe assegurou enquanto limpava as lágrimas que ainda caiam de seus olhos.

— Não quero ser um fardo, vou te ajudar com o que puder.

— Então ficarei feliz em lhe ensinar tudo o que sei. — Respondeu ela com um sorriso.

3 dias depois...

Follium É com grande pesar que comunicamos que na noite passada, após incessantes buscas que encontramos o corpo da Princesa Eliza I à deriva, perto do cais de Lyra. Buscas por sua dama de companhia Isolda ainda continuam. O reino de Lyra segue em luto. Conselheira Vandressa ____________________



— Deu certo. — Disse Sunev suspirando aliviada. — Agora apenas concentre-se em melhorar. — Falou para a forma inconsciente de Eliza, que lutava contra uma febre.



2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que estou lendo agora?

Antes de ser uma escritora, sou uma leitora ávida e sempre que posso estou lendo algum livro.O último da vez é Gótico Mexicano de Silvia Garcia Moreno. A estória tem um de meus elementos favoritos que